Crimes sexuais

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21-04-2013
Ana Cristina Pereira, in Público

Contei-lhe quando ele me disse que me ia deixar. Acho que foi uma tentativa desesperada de o fazer perceber por que era tão distante a nível sexual. Talvez isso o fizesse voltar atrás. A nossa vida sexual nunca foi satisfatória. Havia uma série de coisas com as quais eu não me sentia à vontade. Eu nunca estava lá por inteiro. Aquilo era cada vez pior. Ele percebeu... Por um lado, ele era tudo para mim. Por outro lado, estar com ele era um sacrifício. Eu chamava-lhe "aquilo". Eu pensava que tinha de fazer "aquilo" para que ele não me abandonasse. Isso dava-me algum conforto. Sentia que tinha um objectivo e conseguia fazer alguma coisa. Sofri abuso sexual dos sete aos nove anos. Era um amigo dos meus pais... Não contei a ninguém. Guardei isso para mim até aos 45 anos. Os meus pais ainda não sabem. Fui aconselhada, em tratamento, a não dizer. Isso ia trazer muito sofrimento. Eles não tiveram culpa. O meu ex-marido sabe, os meus irmãos também. Apaixonei-me por ele porque ele sabia ouvir. Era meigo. Eu... eu sentia-o como um porto seguro.

Nunca tinha tido essa sensação com os meus pais. Eles não me protegeram quando era criança. Ele foi a única pessoa que me proporcionou esse sentimento. Quando isso acabou, eu achei que ia morrer ou que ia ficar louca. Vivi a vida toda em função dos outros. Aliás, o que eu queria não interessava. Primeiro, vivi em função dos meus pais, da minha irmã, do meu irmão. Mais tarde, em função do meu marido. Perguntava-lhe tudo. Que queres comer? Onde queres passar férias? Eu pensava: se não fizera que ele gosta, ele vai acabar por me abandonar. O desconforto que eu sentia em ter de lhe pedir alguma coisa! Mesmo que fosse para irmos a casa dos meus pais ou dos meus irmãos, havia um conflito interior. Era uma coisa que eu tinha de lhe pedir. Se, por algum motivo, não lhe apetecia ir, eu arranjava uma desculpa para dar a quem nos tivesse convidado. E não íamos. Houve um desgaste.

Deixámos de fazer "aquilo". Isso começou quando tive o meu primeiro aborto espontâneo. Disse-lhe que era uma fase. Depois, era o stress de ter ficado desempregada. Depois, se havia um problema com a minha irmã, era o stress com o problema da minha irmã, a quem estava a dar apoio. Havia sempre uma desculpa... Nunca falei com a minha irmã sobre o que estava a acontecer. Achava que ia passar. Depois, tinha muita vergonha. Para todos os efeitos, nós éramos um casal muito feliz. Nós, à frente de toda a gente, éramos um casal em harmonia. Na verdade, depois de as pessoas saírem, cada um ia para o seu canto, já não brincávamos, já mal falávamos, já não ríamos. Mas nunca falamos sobre isto. As coisas eram assim. Quando ele me deixou, eu já não trabalhava.

Tinha sido despedida meses antes. Lembro-me de que continuei a fazer o que sempre fazia. Não saí de casa. Continuei a fazer o jantar. Continuei a tratar-lhe das roupas. Ele não saiu do quarto e eu não saí do quarto. Chorava muito. Mas era aquilo que eu conhecia. Era aquilo que eu queria. Isso durou uns dois meses. Ele chegava o mais tarde possível a casa, sentava-se à mesa, comia, ficava no computador. Eu só ia para a cama quando ele ia. De alguma forma, eu queria continuar o mais tempo possível junto dele. Notei que ele estava desconfortável. Disse-lhe que ia para casa da minha irmã. Quando peguei nas minhas coisas, achei que ele ia dizer-me que se tinha enganado. Eu não fazia nada senão chorar, às vezes gritava.

Ao fim de 15 dias, a minha irmã levou-me a uma entrevista para Villa Ramadas, uma comunidade terapêutica para os mais diversos tipos de adição que há em Alcobaça. Já consigo falar sobre o que me aconteceu na infância. Aprendi durante o tratamento. No início, não conseguia dizer uma palavra sem desatar a chorar. Tinha escondido isso na minha cabeça. Foi um mecanismo de defesa. Era demasiado horrível. Quando a situação é demasiado horrorosa, a nossa mente esconde. A minha irmã percebeu que o meu trauma era demasiado grande para eu ir para um psicólogo e andar anos a fio a ser ajudada. Achou que eu precisava de uma ajuda mais intensa. Foi o meu ex-marido que telefonou para os escritórios de Villa Ramadas a contar a minha história. Estive internada sete meses e 11 dias. Cheguei lá desesperada.

Fui porque não queria viver em casa dos meus irmãos. Não conseguia controlar o meu choro. Achava que estava a incomodar, e muito, e não tinha esse direito. Como eles me levaram para lá, eu fiquei porque não tinha outro lugar para ir. Estava assustada. E demorei mais de um mês a conseguir falar a meu respeito. Falei por interpelação da equipa terapêutica. Se havia um grupo direccionado para um problema idêntico, eles perguntavam-me: "Então e tu? Queres contar a tua experiência? A primeira vez que falei tive um ataque de ansiedade brutal, pensei que ia morrer. Fiquei sem ar. Abriram as janelas. Voltei a calar-me algum tempo. Depois, percebi que ali tinha ajuda, que me ouviam, que não me julgavam. Comecei a falar.

Durante muito tempo esperei pelo meu ex-marido. Creio que por volta do quarto mês de tratamento, a passar para o quinto, deixei de esperar. Tinha percebido que não havia volta a dar, que não era feliz, que não podia querer aquilo para mim. Eu continuava a dizer que o amava. Queria estar com ele, mas não naqueles moldes.


Saí há sete meses. Tenho poucos meses disto, mas tenho a certeza de que mereço melhor. Não lhe desejo mal, mas não quero aquilo para mim. Já não tenho medo de o encontrar. Ele quer ter uma conversa. Talvez tenhamos, mas quando eu achar que é o tempo certo. Eu preciso de provar a mim própria que não preciso dele para viver e estou a provar isso. Sinto isso. Nunca mais me interessei por ninguém. Tenho muito medo de futuras relações. Tinha tido um namoro de adolescente e de resto mais nada. Criei uma dependência desse namorado também. Quando me deixou, para mim foi complicado. Tinha 14 anos. Só voltei a ter uma relação aos 27. Namorei dois anos. Estive casada 13. Mantenho algum receio de repetir o modelo. Já não tanto, porque agora tenho ajuda, no Change and Grow , irmandade que segue a filosofia dos 12 passos, como os Alcoólicos Anónimos ou os Narcóticos Anónimos.

Estas reuniões, às 19h, às quintas-feiras, na Igreja de Paranhos, no Porto, têm sido a minha rede de apoio. Eu preciso de adrenalina. Isto dá-me adrenalina. Eu ouço várias coisas. E todas elas me ajudam a pensar de alguma forma, Continuo a precisar de não me sentir sozinha, abandonada. Continuo a precisar de não me sentir estranha. Ali não me sinto julgada - sobretudo isso.

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