Crise leva ex-toxicodependentes a voltar ao consumo

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17-10-2013

O desemprego e a insegurança associados a crise estão na origem do aumento de recaídas de toxicodependentes que já tinham passado por tratamentos e que haviam conseguido estabilizar as suas vidas. Essa realidade é confirmada por instituições da região que lidam com este tipo de população e que apontam ainda o aumento dos consumos de drogas injectáveis, como a heroína, normalmente associadas ao "alívio do sofrimento", e da dificuldade de reintegração das pessoas após o tratamento, pela falta de oportunidades de emprego.
Director terapêutico da clínica Villa Ramadas, localizada em Alcobaca, Eduardo Silva fala de um acréscimo na "ordem dos 16%" no número de pessoas que, nos últimos dois anos, procuraram a instituição por recaídas "ao fim de alguns anos em recuperação". Segundo diz, em causa estão pessoas que "há alguns anos tinham realizado um tratamento e conseguido estabilizar por completo as suas vidas, nas dimensões pessoal, familiar, social e profissional e que, por um conjunto de situações, voltaram a consumir algum tipo de substancia". No entender daquele responsável, a questão económica esta, "sem dúvida", associada ao aumento das recaídas. "0 facto de algumas dessas pessoas terem perdido o emprego e terem passado a viver com maior insegurança são apontadas pelos próprios como “facilitadores do regresso ao consumo de substancias", acrescenta Eduardo Silva. Também o Centro de Recuperação e Integração de Leiria (antigo CAT-Centro de Atendimento a Toxicodependentes), que abrange os concelhos de Batalha, Leiria, Marinha Grande, Pombal e Porto de Mos, tem verificado um aumento das recaídas da população que atende. Segundo Cristina Barroso, responsável pelo centro, essas situações registam-se não apenas nos consumos de estupefacientes, como cocaína e heroína, mas também de álcool. "A falta de perspectivas, a dificuldade acrescida em encontrar um emprego e formas de subsistências, numa população como esta, já por si mais fragilizada, tem, provavelmente, levado ao agravamento da situação", diz.
Essa realidade é constatada quase diariamente pelos voluntário da Associação Novo Olhar II, que presta apoio a toxicodependentes em Leiria e Marinha Grande. "Desde o ano passado, que temos encontrado pessoas que já não víamos há anos e que voltaram a consumir", conta Ana Cristina Quintanilha, directora da associação, que explica essas recaídas também com a conjuntura actual. Segundo diz, na maioria dos casos são pessoas que, "de um momento para o outro, viram a sua vida desorganizada, nomeadamente por forca do desemprego, e que não tiveram estrutura para ultrapassar isso, refugiando-se na droga". Este aumento de recaídas foi, alias, um dos argumentos utilizados pela Associação Novo Olhar II para fundamentar a proposta apresentada em Agosto para a constituição de equipas de rua de reparação de danos, para prestar apoio na área da troca de seringas, por exemplo. A par do acréscimo das recaídas, Ana Cristina Quintanilha frisa a alteração de consumos, com a mudança de drogas fumadas para injectadas. Essa alteração estará já reflectida no relatório sobre a situação da toxicodependência em Portugal, relativo a 2012, que, segundo o Expresso, será divulgado no próximo mês.
Em declarações aquele jornal, Joao Goulão, director-geral do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e das Dependências, reconhece que a recessão está a provocar um aumento do abuso de drogas e alterações nos padrões de consumo, com o regresso à heroína. "É uma droga associada a marginalidade e a exclusão social. Não tem fins recreativos como o ecstasy e os estimulantes de uma forma geral. O consumo da heroína está ligado ao alívio do sofrimento, o que explica o seu recrudescimento nesta altura de crise", afirma Joao Goulão. Embora sem dados concretos que lhe permitam confirmar o aumento de recaídas no centro de Fátima da Comunidade Vida e Paz, onde esse levantamento "esta a ser feito", Renata Alves, directora da instituição, fala da dificuldade de reintegrar quem passa pelo tratamento. "Essa etapa implica que as pessoas estejam inseridas no mercado de trabalho e isso, por força da conjuntura, está mais complicado e demora mais tempo", nota.

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