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27-01-2014

Drogas "leves" vs drogas "pesadas"
Drogas "leves" vs drogas "pesadas" Rita Morais, psicóloga clínica no centro de tratamento Vila Ramadas, evita usar essa classificação. "Tanto as drogas chamadas 'pesadas' (por exemplo, heroína ou cocaína), como as 'leves' (haxixe e álcool) são igualmente perigosas e conduzem frequentemente a sucessivos internamentos psiquiátricos, prisões e morte. O uso e abuso destas substâncias químicas (leves ou pesadas) em indivíduos com predisposição para se tornarem dependentes pode ser fatal." Ou seja, o facto de serem vendidas de forma legal, em espaços comerciais ou online, e com menores custos, vem apenas camuflar um perigo que é iminente em qualquer tipo de droga: "A classificação 'leves ou pesadas' é considerada do ponto de vista de dependência física. Contudo, a doença da adição vai muito para além do físico'', conclui a especialista.

Legais = menos perigosas?
Esta é a premissa que faz com que quem procura os produtos existentes neste tipo de lojas pense (ou se queira convencer), que o perigo é menor, seja ao nível dos efeitos provocados, como na probabilidade de causar dependência. Mas quem assiste de perto a vários casos de adição deste tipo de substâncias defende o oposto: "Tanto do ponto de vista físico, como social, psíquico e emocional, as consequências são nefastas. Assistimos a jovens com uma curta história de consumos e com elevados níveis de isolamento social, baixo rendimento académico, relacionamentos disfuncionais, alterações de sono, sintomatologia depressiva, raciocínio lento, baixa capacidade de concen-tração, distanciamento afetivo e episódios psicóticos frequentes."

Busca infinita
Embora este possa ser um caminho sem retorno, não deixa de ser uma "viagem" extremamente aliciante para quem procura uma fuga. "Vivemos numa sociedade de prazeres imediatos, onde a curiosidade, a procura de novas sensações, a ilusão da adrenalina e a necessidade de ser aceite são os motivos sinalizados para o consumo destas substâncias", explica a psicóloga.

Como controlar esta "epidemia"
Em abril de 2013 foi implementada uma lei que proibiu Portugal de "produzir, distribuir, vender, deter ou disponibilizar" novas substâncias psicoativas. A lei, publicada em Diário da República, inclui uma lista de 160 substâncias até então consideradas drogas legais e por isso disponíveis em
lojas ou na internet, sob pretexto de serem, por exemplo, fertilizantes para plantas. A mesma lei prevê uma progressiva atualização das substâncias a proibir, que será feita em períodos não superiores a 18 meses e sempre que seja necessário. Os 45 casos de intoxicação grave que deram entrada nos serviços de urgência no nosso país (com alterações de caráter psiquiátrico grave e, em alguns, até permanente) e seis mortes que permanecem em investigação precipitaram a implementação desta lei que visa travar o acesso facilitado a este tipo de substâncias. Mas colocar um ponto final neste fenómeno torna-se cada vez mais difícil, sobretudo devido ao papel da internet na divulgação e acesso aos produtos. Para Rita Morais, "é necessário cada vez mais o planeamento de ações de sensibilização, programas de prevenção e intervenção nas escolas, mais ações de formação aos agentes educativos e profissionais de saúde e novas políticas a respeito destas temáticas." A família e o grupo de amigos têm um papel determinante, pois, sem se aperceberem, podem perpetuar um cenário de dependência, negando ou desvalorizando o problema do filho, amigo ou parceiro. "A partir do momento em que a dependência é identificada, o pedido de ajuda por parte da família é o primeiro passo para o tratamento. É importante apoiar o processo, tendo noção de que poderá ser necessário recorrer à ajuda de profissionais, como o caso do modelo terapêutico Change and Grow, utilizado no centro Vila Ramadas", explica Rita Morais.
 

Tipos de Dependência


Na base de uma dependência podem estar múltiplos factures:


  • Que contribuem para o seu início - biológicos.

  • Que precipitam - trauma de infância, luto.

  • De manutenção - desemprego, divórcio, rituais.


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As causas do comportamento aditivo são desconhecidas, e variam de caso para caso, embora se saiba que o tipo de dependência pode ser química, emocional ou comportamental. Mas segundo a psicóloga, em todas elas se verifica um denominador comum: "A dificuldade em gerir sentimentos e pensamentos no relacionamento interpessoal, recorrendo a um evitamento da realidade."
 

Efeitos Secundários - O lado mais obscuro


De acordo com o Diretor Terapeutico Eduardo R. da Silva, no último ano, grande parte dos internamentos verificados no centro de tratamento Villa Ramadas incluíram casos de consumos desta natureza e de outras substâncias associadas (alucinogénias). O consumo humano deste tipo de substâncias veio agravar todo o cenário que envolve o consumo de drogas, devido aos riscos que este acarreta:


  • O corpo reage com sinais de envenenamento (desmaios, perda de equilíbrio, tonturas, vómitos).

  • Verificam-se estados de confusão e pânico, podendo ocorrer um surto psicótico - deixar de saber quem é, onde está.

  • Dependência física e psicológica.

  • Alterações de personalidade em que o consumidor se mostra depressivo e desinteressado.


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Smart shops o que são?
O conceito ainda pode ser dúbio para alguns, mas para uma faixa cada vez mais alargada da população jovem adulta é uma realidade acessível à distância de um dique, ou até mesmo na porta ao lado de casa. As smart shops são estabelecimentos legais onde se vendem substâncias com efeitos psicoativos. Estes espaços comerciais funcionam com uma licença semelhante à de uma ervanária especializada e, dessa forma, podem vender produtos designados por smart drugs ou legal highs. A composição química original (e ilegal) dessas substâncias é alterada nalguns dos seus aspetos moleculares, o que faz com que possam estar legalmente à venda.

O que se vende?
Numa smart shop podes encontrar produtos tão inofensivos como catos, cogumelos, ervas, incensos, sais de banho, chás ou fertilizantes de plantas, cujos rótulos indicam ser impróprios para consumo humano, e apresentam-se sob a forma de comprimidos, cápsulas, pó e partes ou extratos de plantas. A composição molecular destes produtos é idêntica à das drogas ilegais, mas passa por um processo de transformação que a altera a ou torna mais complexa. No entanto, essas modificações efetuadas por drug designers — especialistas com conhecimentos de química e que fazem a alteração molecular em laboratórios -, não só mantêm como, nalguns casos, podem até aumentar os efeitos das substâncias originais, provocando reações mais perigosas cio que a própria composição inicial.
 

Substâncias que podes encontrar à venda em smart shops:

 


  1. Alucinogénios ou Perturbadoras
    Cogumelos mágicos (onde se incluem diversas espécies de cogumelos alucinogénios).
    Sementes de LSA (amido de ácido lisérgico).
    Sálvia Divinorum (planta originária do México).

  2. Estimulantes Fertilizantes para plantas (compostos por uma quantidade indeterminável de substâncias).

  3. Depressoras Kratom (folhas de árvore : de origem tailandesa usadas : como substitutas do ópio).

  4. Canabinóides Incensos (compostos por uma imensa variedade e quantidade de substâncias). Damiana (arbusto oriundo da América Central, com propriedades supostamente afrodisíacas, que provoca problemas graves ao nível do fígado).


  5.  



"Pensava que não faziam mal porque se vendiam numa loja de um amigo 99"
SUSANA, 20 ANOS

"Usei drogas de uma smart shop pela primeira vez há dois anos. Achava que podia ter uma vida normal sem ficar dependente, pois só as usava socialmente. Era mais fácil acreditar nisso e usar aquelas drogas para me desinibir, mas após um mês estava a consumir quase todas as noites. Deixei de conseguir dormir, via fantasmas no quarto, e uma noite saí de casa de propósito para me encontrar com esse amigo e consumir. Mais tarde, convidei outra pessoa a experimentar. Estacionámos o carro num local onde não passava ninguém e fumámos aquilo que tínhamos comprado, mas como não estava a sentir nada, experimentámos algo mais forte. Eu queria estar totalmente 'solta'! Acabei por ter relações sexuais violentas com ele, desrespeitei o meu corpo e hoje sinto nojo por aquilo que o vício me levou a fazer. Mas a noite não acabara ali.., comecei a sentir sono e secura na boca, bebia água mas continuava com a boca seca, pensava que ia morrer se adormecesse com sede e tinha espasmos em todo o corpo. Foi assustador! Fiquei mal disposta, comecei a vomitar sem parar, sentia que o estômago ia sair pela boca, tentei pedir ajuda ao meu amigo mas ele também estava a vomitar e fiquei desespera-da porque não tinha forças no corpo. Consegui-mos chamar uma ambulância e passámos a noite no hospital. No dia seguinte, quando acordei, senti nojo do que fizera comigo... mas passados uns dias voltei a consumir e a pensar que conseguia controlar. No fundo, queria esquecer aquela noite, mas para isso continuava a alimentar o vício. Não aguentava mais sentir-me um lixo humano, precisar de drogas para estar bem e sem elas sentia que não valia nada. Tinha de pedir ajuda, só queria morrer. Hoje tenho noção do poder que aquelas drogas tinham sobre mim. Sinto-me tão livre sem elas! Sou responsável, respeito-me, não faço nada para agradar a ninguém, sou como sou e faço o que gosto para me sentir bem, choro quando tenho de chorar, sou feliz sem substâncias, por mais 'legais' que sejam. Enfrento os meus medos e luto para vencer as dificuldades. Sou feliz!"

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